Caminho Não Material

No post anterior tentamos traçar, em breves linhas, o caminho percorrido pelo homem em sua evolução enquanto espécie de acordo com o que a percepção humana construiu e conseguiu trilhar seguindo os sentidos naturais em contato com o meio material ao redor.

Sabemos que todas as civilizações humanas em várias épocas tentaram ou desenvolveram uma forma de entrar em um meio mais metafísico da existência. Muitas dessas tentativas são conhecidas, até mesmo porque muitas delas são milenares e passam de geração a geração.

E como sabermos que essa afirmação de que todas as civilizações humanas – em todos os tempos – procuraram algum tipo de contato com o mundo não material é verdadeira? Porque há a constatação de que uma das principais formas de os arqueólogos saberem que tal crânio encontrado numa escavação seria de um homem pré-histórico é a presença de objetos pessoais no local fúnebre, mostrando uma nítida cerimônia de preparação para uma vida pós-morte. Outro exemplo recente seria a de moedas encontradas dentro dos crânios em que foram colocadas nas órbitas oculares para, segundo a mitologia grega, pagar o barqueiro de Hades que transportaria as almas dos mortos sobre as águas que dividiam o mundo dos vivos do mundo dos mortos.

São exemplos que ilustram que todas as sociedades humanas, em todos os tempos, sempre tiveram essa tendência natural, poder-se-ia dizer, de, em momentos específicos, ou cotidianos, voltarem as suas atenções para a tentativa de entrar em contato com um mundo não material.

Mas esses caminhos talvez surjam de uma necessidade humana de dar resposta a uma realidade muito conhecida desde que os homens desenvolveram as suas técnicas mais primitivas e se deram conta de que todas as existências, ou todos os seres vivos estavam marcados por um fim comum a todos. Daí a constatação de que, na história e na pré-história da humanidade em certos momentos a realidade não material poderia ser tão concreta quanto a realidade material ao redor do ser humano.

Mas poderíamos dizer que todas as tentativas humanas que buscavam alguma forma de comunicação com um mundo metafísico seriam ou deveriam ser tidas como caminhos corretos para alcançar essa percepção não material? Esse é primeiro paradigma que deve ser colocado em xeque: um possível senso comum, nos dias atuais, dando conta da afirmação de que todos os caminhos de caráter metafísico trilhados e desenvolvidos pelos homens são caminhos bons em sua natureza, porque todos levariam à Realidade Primeira.

Podemos contatar em qualquer livro de história que em muitos desses caminhos haviam rituais que atentavam contra a própria existência humana, haja vista a presença de sacrifícios humanos diversos. Então pode-se constatar que a afirmação de que “todos” os caminhos são caminhos bons porque ao final eles levariam ao contato com o Criador, não prevalece depois de uma pequena reflexão mais aprofundada.

Mas teríamos um caminho que seria mais de acordo com a condição material humana que trafega em um ambiente material? Porque devido à condição material da existência humana é difícil se desvencilhar de um olhar em que ao final a matéria não esteja sempre presente, mesmo que numa seara dita metafísica. O exemplo maior é a visão de que tudo no mundo – as nuvens, a flor, o homem, a pedra, etc. – tudo é deus. Seria uma forma correta de encarar uma possível realidade metafísica se não houvesse a constatação de que, na realidade, seria mais uma celebração materialista, porque ao final todos os tipos de matéria seriam os próprios deuses.

Temos várias trilhas que desembocam em determinado caminho que seria o verdadeiro e mais seguro caminho em direção a uma Realidade metafísica que se mostra a mais de acordo com a tendência humana de se inclinar frente a uma realidade não material. Dentre essas trilhas existem duas que se mostram as mais eficazes nessa tentativa humana de desenvolver um meio que esteja mais afeito ao desenvolvimento de uma espiritualidade.

Para se alcançar uma dessas trilhas deve-se ter a consciência de que além da matéria, possuímos outra forma de ser e estar presente no meio material que se une à matéria enquanto a mesma exista enquanto ser reconhecidamente material ou biológico.

Para nos darmos conta de que somos outro ser dentro do nosso ser – mas que vivem em comunhão até que o ser material deixe de ser proeminente -, devemos dar um mergulho dentro de nós mesmos e acharmos ou conseguirmos enxergar a nossa alma.

Uma vez constatando-se a existência da alma dentro de nós e de todos, onde todos têm a sua própria alma, entramos numa realidade sobrenatural em que tudo é possível em termos não materiais. Porque somente com a constatação desse ser não material presente em nós e fazendo parte de nosso ser é que somos capazes de termos uma ideia de nossa condição eterna enquanto alma que somos a priori.